CULINÁRIA tem a ver com MEDICINA?

Foi com enorme prazer que entrevistamos a Dra. Paula Pires, endocrinologista formada pela USP, para saber mais sobre a importância do aconselhamento nutricional para médicos e sobre a sua experiência no curso "Medicina do Estilo de Vida e gerenciamento do stress, sono e qualidade de vida" feito na Harvard Medical School em Junho de 2017 (Tools for Promoting Healthy Change).

 

Dra. Paula, então nesse curso feito na Harvard vocês debateram a relação entre medicina e cozinha ? Conte um pouco mais para a gente..

 

Sim! Em junho desse ano,  tive o prazer de fazer esse importante curso junto com as endocrinologistas  Dra. Tassiane Alvarenga @tassianealvarenga e Dra. Cíntia Cercato  e notamos que a educação culinária para os profissionais da saúde  é uma tendência  muito forte por lá. 

 

O curso abordou a importância dos médicos saberem cozinhar para  orientarem os seus pacientes. Debatemos os maiores obstáculos que nós, médicos, enfrentamos para introduzir o hábito de cozinhar comidas saudáveis em casa (falta de confiança, habilidade e tempo). Discutimos muito sobre como atualmente encontramos médicos obesos, que não sabem cozinhar, que não aprenderam nenhuma noção de culinária na faculdade e que por não se cuidarem, muitas vezes não cobram isso do seu paciente e nem abordam a questão do peso em consultas médicas. 

 

Ao seu ver, qual a importância de incentivar e divulgar uma alimentação mais saudável ?

 

O Brasil tem cerca de 18 milhões de pessoas obesas e esse dado  é alarmante. Somando o total de indivíduos acima do peso, o montante chega a 70 milhões, o dobro de há três décadas. Quando vemos estas estatísticas, obesidade e sobrepeso podem ser considerados a pandemia deste século e mesmo assim, 47% dos pacientes obesos, se consideram apenas com sobrepeso, ou seja, subestimam o real problema. 

Como você acha que os médicos  estão lidando com a questão da alimentação?

Ao voltar do curso, tive conhecimento de um artigo escrito recentemente sobre este tema,  publicado no editorial do JAMA  em setembro de 2017, escrito por Scott Kahan, médico da escola de saúde publica da Johns Hopkins, e, por Joann E. Manson, médica da escola de medicina de Harvard. Eles citam que, nos Estados Unidos, apenas 12% das visitas médicas incluem aconselhamento sobre alimentação e que mesmo em pacientes de alto risco cardíaco, com diabetes e dislipidemia, apenas 1 em cada 5 pacientes recebem aconselhamento nutricional em visitas médicas. Sendo os principais motivos disso, a falta de treinamento e de tempo.  Pois a maioria dos médicos e outros profissionais de saúde em geral recebem uma educação limitada em nutrição nas escolas de medicina, com somente 25% das escolas de medicina oferecendo cursos de nutrição para médicos e sendo assim, como resultado, os médicos relatam uma falta de conhecimento em nutrição, o que resulta em uma falta de eficácia em orientar melhor os seus pacientes e como nem todos os pacientes possuem acesso à equipes de nutrição e endocrinologistas, muitos ficam sem estas orientações.

Apesar de estarem debatendo essas questões nos Estados Unidos atualmente o desafio ainda parece ser muito grande por lá. E aqui no Brasil, como você vê essa questão?

 

Nosso desafio é ainda maior! Apenas 25% dos brasileiros possuem plano de saúde, os outros 75% dependem do SUS ou de consultórios particulares. Por isso, não podemos deixar este cuidado apenas com endocrinologistas e nutricionistas, temos que engajar todos os médicos e profissionais de saúde nesta missão.

Para você, quais são os maiores desafios que enfrentamos para incentivar as pessoas a terem uma alimentação saudável?

 

Estamos em uma época muito difícil para o aconselhamento nutricional. Comidas pouco nutritivas são em geral mais baratas e de fácil acesso e possuem um marketing incisivo. Além disso temos muita informação conflituosa e confusa vindo de vários lugares não especializados como blogs, mídias sociais e etc. 

Porém, por outro lado, apesar dessa tendência desfavorável, já se observam alguns progressos nessas áreas, com um aumento da demanda de treinamento nutricional nas escolas de medicina, visto a escola de Medicina de Harvard, que introduziu o conceito de laboratórios de cozinha (http://www.tkcollaborative.org) e Coach de Culinária para médicos  (http://www.instituteoflifestylemedicine.org/services/culinary-coach-training-for-health-coaches/), sendo que este último, tivemos  o prazer de assistir a várias aulas do Dr Rani Polak, médico, Chef de cozinha e o fundador do programa de "fundamentos de culinária na escola de medicina de Harvard. “ E no Brasil, já temos nutricionistas que ensinam a arte da culinária para várias pessoas como a Marina Galvão Bueno @tutugalvaobueno. 

 

Quais dicas você daria para as pessoas que querem mudar a sua alimentação?

 

Acredito que é importante estabelecer uma meta pequena no início. Por exemplo, aumentar o consumo de frutas em mais 1 porção por dia, pois essa medida simples, tem o potencial em reduzir a mortalidade cardiovascular em até 8%, o que pode equivaler a 1,6 milhões de mortes evitadas no mundo.  

 Também aconselho não querer fazer tudo de uma só vez, mudar os hábitos de uma vida inteira não acontece em uma única consulta. O importante é começar, pequenas mudanças já podem melhorar a saúde rapidamente, como por exemplo, a redução de gordura trans em uma única refeição melhora imediatamente a função endotelial. (como citado em um artigo publicado em uma importante revista americana de cardiologia).

 

Para aqueles que não conseguem ler textos longos, como você resumiria essa entrevista em uma frase?

 

Vou utilizar a frase final do editorial do JAMA que é perfeita: Nutrição e mudança comportamental de estilo de vida precisam ser competência técnica de todos os médicos, de todas as especialidades e de todos os profissionais de saúde que trabalham com pacientes que possuem ou estão em risco de possuir doenças crônicas relacionadas à alimentação. 

 

Para terminar, quais são as # desse tema?

#medicosnacozinha 

#todosjuntosparaasaude 

#eutratoobesidadecomseriedade

Para contactar a Dra. Paula Pires

 

 No instagram @paulapiresendocrino

 Site www.paulapiresendocrino.com.br

Para acessar o artigo citado clique AQUI